Sabiam que 90% do nosso comportamento é totalmente previsível?
Argumentem quanto quiserem, berrem, chorem, gritem, mas a verdade é que o contexto onde estamos inseridos condiciona quase todas as nossas acções.
Já experimentaram não segurar o volante enquanto conduzem, mas sim pegar num lápis e fingirem-se de maestros?
(Não tentem.)
Pois bem, não seria boa ideia, de facto, tal como soltar um sonoro vitupério à mesa de jantar, com o paizinho e a mãezinha por perto.
Como diz um amigo meu, cagar é na casa de banho. E muita razão tem ele, cada coisa tem – e toca de dar vivas à teoria do caos – o seu lugar e momento.
Sabiam, igualmente, que nos primeiros 3 a 5 minutos de contacto com uma pessoa desconhecida, a inserimos, de imediato, no ramo mais apropriado da nossa "taxonomia"?
Ou seja, vivemos condicionados aos estereótipos que criamos; e mais grave ainda, depois de formarmos a nossa opinião, procuramos e aceitamos apenas, pontos que a validem. Primeiras impressões ganham um sentido totalmente novo, não é?
Quer dizer então, que não obstante de provas contrárias, vamos apenas alimentar a nossa ideia inicial até se parecer como um porco antes da matança, e deixar morrer à fome a ténue e pálida imagem e representação verdadeiramente fiel do sujeito sob a nossa mira.
Em circunstâncias de relevância quase nula para a nossa pequena crónica, os protagonistas Eduardo e Miriam travaram conhecimento há cerca de ano e meio atrás. Os processos supracitados figuraram todos neste acquaintance e, novamente, não serão aqui explicados em detalhe.
Detalhado será, contudo, o relato desta noite.
A fim de vos situar, o Eduardo e a Miriam
(mais a Miriam que o Eduardo, verdade seja dita)
andam em ânsias
(ou será ao contrário?...não interessa)
para dar uma queca há já muito tempo.
As complicações, habitualmente, surgem, são identificadas, analisadas, é descoberta a melhor maneira de lidar com elas, e em seguida é isso mesmo que se faz: lidar com elas.
Para estes dois, no entanto, se não houver uma singela confusão, mal-entendido, ou uma outra merda qualquer, acreditem vós no que digo, eles tratam de arranjar.
Picardias de todas as maneiras e feitios, ofensas, medidas de força, alusões de carácter sexual, etc etc. Enfim, tudo isto acumulado acaba por gerar uma tensão e uma atracção que faz jus ao adagio do "amor/ódio", e leva todos os que rodeiam este excepcional "casal" a dizer: já fodiam!
E assim a estória se tem passado desde que há memória.
Não hoje.
Um outro dia, um outro casal.
A porta do elevador abre-se e, esbaforidos, entram dois transeuntes. O motivo da escassez de ar nos seus corpos não se deve por um qualquer sprint até ao elevador para este não partir antes do tempo, mas sim porque eles – os corpos – estão de tal forma colados que é difícil imaginar como é que entra ar por intermédio dos poros nas peles de ambos, quanto mais pelos narizes e bocas, que mais parecem ser unos neste momento.
O ambiente sombrio é ideal: apenas com a parca iluminação e espelhos em todo o redor, para onde quer se olhe, só se vislumbra mãos, pele, tecido, carne. Um roçagar de lábios pescoço acima, uma mordida em pele incauta, um beijo sôfrego que parece durar tanto como a ascensão até ao andar pretendido.
A porta da casa abre-se e, insolentes, são os sorrisos que ambos os transeuntes ostentam. À medida que avançam, um belo par de sapatos pretos de senhora ficam para trás, indo-se-lhes juntar um elegante casaco de tuxedo cinzento, uma camisa branca, e um lindíssimo vestido preto sem costas. O destino deste rastreio de enxoval, muitas vezes referido como fado (o destino), aqui é certo: a cama.
A cama verga-se, sem quebrar, perante o recém-chegado peso de dois corpos. E num fechar de olhos, reinicia
(terá mesmo chegado a terminar para estar agora a "reiniciar"?)
todo o ritual de carícias, palavras e gestos movidos exclusivamente pelo estado inebriante em que os transeuntes se encontram. Descartam-se os acessórios restantes da indumentária de ambos e agora sim, o leão está, finalmente, na cama com o lobo.
É agora: já não há espaço para o pensamento racional, entregam-se os dois ao arrebatador e avassalador sentimento que os percorre de mexa de cabelo a dedo do pé, de base da nuca ao fundo das costas, do peito à virilha, numa explosão que terá, indubitavelmente, consequências descomunais.
Eis senão quando: "Eduardo!... não... devíamos, não podemos, não, não..."
Cala-te e fode-me!...
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
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