«A Susana pousou o vaso com muita força no banco, e ele partiu-se.
A que se refere a palavra ele nesta frase?
A frase é ambígua, embora a maioria das pessoas só dê conta de uma interpretação: ele tem de se referir ao vaso, não ao banco.
Para chegar a esta conclusão contámos com o nosso conhecimento de que os vasos são habitualmente frágeis e os bancos não.
Assim, interpretamos de um modo que é guiado pelo nosso conhecimento, conhecimento esse que é obviamente fornecido pela memória. Não estamos, no entanto, conscientes do facto de que dependemos da memória. De facto, nem sequer nos damos conta, na maior parte dos casos, da frase ser ambígua.
De novo, somos apenas conscientes do produto destas operações – a nossa compreensão do significado da frase».
In Psychology, Gleitman et al.
Foi ontem, quando estava em vias de me deitar, que experimentei a necessidade de escrever. Surgiu, no decorrer deste inelutável capricho, uma panóplia de assuntos e matérias sobre a qual me senti, de imediato, predisposto a reflectir. Elucidando os demais com uma metáfora dita ‘cliché’: parecia mesmo que algo havia despertado em mim. Um desejo latente até então, mas que de forma súbita e inexplicável tinha tomado forma e corpo (com todos os adereços e atavios que possam imaginar), e dotado de uma vontade própria, me compelia a sentar em frente ao computador e simplesmente passar para o ‘papel’ tudo e mais alguma coisa.
Mas a preguiça foi mais forte, e procedi, como planeado, para o vale-dos-lençóis.
Sensivelmente vinte cinco horas depois, dou por mim a ponderar que ‘preguiça’ não é o termo que melhor descreve o contrapeso que, na véspera, me impediu de começar a escrever desenfreadamente. Afinal ontem apenas procrastinei, ou seja, de forma inconsciente, só adiei para o dia seguinte a minha recém-adquirida vontade.
Go figure.
Sendo esta a primeira vez que me dirijo a todos vós, talvez fosse oportuna uma introdução de certo tipo. Pois bem, para tecer rasgados elogios à minha pessoa estou sempre pronto.
Jovem bem-parecido, dezanove Invernos, solteiro, pronto para uma relação que conduza a matrimónio mas não filhos (odeio fraldas, choros, cheiro a merda e biberões), procura jovem de sexo feminino
(se não especificasse ainda me apareciam por aí uns malucos quaisquer),
atraente, inteligente, quente, e todo um conjunto de adjectivos que rimem com ‘ente’ – usem a imaginação
(está bem mas não cai por bem teres escrito dessa forma)
que goste de música, cinema, literatura, desporto automóvel e lavar loiça
(vês? essa referência à lavagem de loiça tem um teor profundamente sexista)
para encontros aparentemente fortuitos que despertem interesse e, quiçá, levem ambos ao supracitado matrimónio-sem-fedelhos
(ora essa, quem escreve a crónica sou eu, digo o que me aprouver)
mais informações, contacte-me: serei o imbecil de boina e óculos de sol a almoçar no Martinho da Arcada aos Sábados.
Pondo de parte o braggadocchio que acabaram de ler, acredito que é muito mais interessante virem a conhecer – por intermédio da minha escrita, das minhas opiniões sobre os mais variados temas, do meu clube desportivo, da minha cor favorita, da minha marca de cigarros e afins – do que condicionar, desde já, o vosso julgamento crítico
(adoro estas redundâncias ‘julgamento crítico’… gostava de me deparar um dia com um julgamento acrítico)
e dizer que sou um idiota que acha que, por publicar o que escreve, vai fazer algum contributo à Humanidade.
Para todos os que ainda estão a tentar perceber onde é que a citação inicial encaixa nisto tudo, vou agora providenciar a luz que iluminará o caminho tímido mas curto da compreensão.
Quando um amigo meu
(que está decerto rejubilante por não revelar a sua identidade)
esta noite pegou no livro em questão e decidiu ler a passagem que dá início a esta crónica, apareceu aquela magnânima representação de uma lâmpada acesa a pairar por cima do meu belo escalpe – sinal mundial de ‘o tipo teve uma ideia’ – e soube, logo, que queria falar-vos de ambiguidade.
Por definição, é a qualidade do que é ambíguo.
(Boa Einstein!)
De novo, e pondo de parte a minha tautologia, ambíguo é algo que possui um duplo sentido.
Como a frase onde a Susana é sujeito activo.
Como o termo que melhor descrevia o meu ‘estado de espírito’ ontem – preguiça ou procrastinação.
Como o que me passava pela cabeça quando decidi transformar uma pequena descrição da minha pessoa num classificado-de-jornal-disfarçado-e-abastardo-senão-mesmo-massacrado.
Como os meus diálogos, que afinal são monólogos, ou que se calhar são diálogos e eu escolhi ambiguidade como tema para atenuar a patologia de que padeço.
Como o duplo sentido inerente a tudo o que escrevi, que deixa em todos vós a perpétua dúvida se o gajo está a falar a sério ou a gozar com a minha cara.
E pronto, foi o que fiz.
Agora que chegámos ao fim, irei tentar fazer jus ao tipo de texto que esta composição é e, por conseguinte, voltar a publicar uma qualquer ‘reflexãozita’ na semana vindoura.
Subscrevo-me,
Manuel
COOOOOOOOOOOOOOOOOOOOORTAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!=)
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